A expressão “CAPS não é meme” tomou conta das redes sociais, provocando debates e reflexões em todo o país sobre a importância da saúde mental. Em Divinópolis, a pauta não fica restrita ao ambiente digital: é trabalhada diariamente pela Prefeitura, através da Secretaria Municipal de Saúde (SEMUSA), nas unidades da RAPS - Rede de Atenção Psicossocial, que desempenham papel essencial no cuidado com pessoas em sofrimento psíquico.
Com atendimento humanizado e acompanhamento especializado, os serviços do CAPS desconstroem preconceitos e mostram que saúde mental é coisa séria. Em média, cerca de 60 pessoas são atendidas diariamente nas unidades locais, garantindo acolhimento, tratamento e inclusão social a quem mais precisa.
O coordenador do CAPS, Wanderson Teixeira, alerta para o aumento dos estigmas e preconceitos em torno da saúde mental, especialmente nas redes sociais, que reforçam tabus históricos e afastam pessoas do tratamento adequado. “Expressões que associam o CAPS a algo negativo ou a pessoas ‘loucas’ prejudicam nosso trabalho e limitam nossa atuação, quando na verdade tratamos condições que precisam ser compreendidas e normalizadas. Reforço que o preconceito afasta do cuidado.”
A psicóloga Ana Luísa Amaral recorda um dos atendimentos que mais a marcou, mostrando na prática como o CAPS vai muito além do cuidado clínico. Ela explica que a equipe recebeu uma mulher em situação de rua, grávida, dependente de crack e com sequelas de uma agressão que dificultava sua comunicação. Sem acesso ao pré-natal e vivendo em extrema vulnerabilidade, a jovem encontrou no atendimento integrado — CAPS, Atenção Primária, Assistência Social e rede de apoio — um caminho para reconstruir sua vida. “Durante cinco meses, ela conseguiu levar a gestação sem uso de drogas, contou com acompanhamento próximo e, após o nascimento do bebê, retomou o convívio familiar em um espaço protegido, com suporte para manter uma rotina estruturada e acesso a benefícios sociais”, relatou a psicóloga.
Este exemplo ilustra como o atendimento realizado pelo CAPS ultrapassa o tratamento clínico tradicional e envolve um trabalho interdisciplinar que considera as múltiplas necessidades do paciente. A integração entre diferentes serviços e a atenção às condições sociais são essenciais para a efetividade do cuidado em saúde mental, promovendo a inclusão e a melhoria da qualidade de vida dos usuários.
O médico-psiquiatra do CAPS, Samuel Ângelo Honorato Maciel Santana, destaca que o cuidado vai muito além da prescrição de medicamentos. Ele explica que o primeiro contato com o paciente é decisivo, pois é nesse momento que se avaliam não só os sintomas, mas também a história de vida, as fragilidades e os potenciais de cada um. A partir daí, a equipe constrói um Projeto Terapêutico Singular, com metas claras e estratégias personalizadas. “O atendimento é pensado de forma integrada: trabalhamos abstinência ou redução do consumo, propomos oficinas que estimulam autonomia e memória, e buscamos a reinserção social e até laboral”, afirmou o psiquiatra.
Para ele, um dos maiores obstáculos ainda é a adesão ao tratamento. Muitos pacientes interrompem o processo cedo demais, seja pela ausência de apoio familiar, pela carência de uma rede estruturada ou pelo preconceito social, que persiste mesmo diante de benefícios como transporte e alimentação oferecidos pelo serviço.
Funcionamento e inclusão
Existem três tipos de Centros de Atenção Psicossocial em Divinópolis: o CAPSi, destinado a crianças e adolescentes de 3 a 18 anos com transtornos mentais severos, persistentes e em crise intensa; o CAPS III, voltado para adultos com sofrimento psíquico intenso e transtornos graves; e o CAPS AD, especializado no atendimento a pessoas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas. O CAPS III e o CAPS AD oferecem atendimento ininterrupto, em todos os dias da semana; já o CAPSi funciona de segunda a sexta feira de 07:00h às 17:00h.
Além das unidades principais do CAPS, a RAPS de Divinópolis conta com o Centro de Convivência e Cultura (CCC) e a Unidade de Acolhimento para Adultos (UAA), que são braços importantes na continuidade do cuidado. O CCC atua como um espaço de socialização, convivência e fortalecimento de vínculos, promovendo atividades culturais, educativas e recreativas que contribuem para a reinserção social e o fortalecimento da autonomia dos usuários. Já a UAA oferece acolhimento com abrigamento e suporte social transitório e atendimentos complementares, proporcionando suporte clínico e psicossocial, ampliando o acesso e a continuidade do cuidado em saúde mental e a reinserção social e profissional.
Para ser atendido, basta procurar qualquer unidade do CAPS, Unidades de saúde do seu bairro ou recorrer a intermediários como SAMU ou Polícia Militar, que encaminharão o paciente para a unidade adequada. As equipes são multiprofissionais e contam com médicos, enfermeiros, farmacêuticos, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais.
Entre os muitos relatos que chegam ao CAPS, um paciente — que prefere não se identificar — mostrou como o tratamento pode transformar vidas. Ele conta que conseguiu deixar para trás o uso de substâncias, reconquistar autonomia e estabelecer uma rotina equilibrada, marcada por trabalho, lazer e vínculos afetivos.
“Hoje tenho horários para tudo, não uso drogas, consegui um emprego e retomei atividades que me dão prazer, como a música e as caminhadas. O que faz diferença aqui é o acolhimento: profissionais que viraram amigos, que escutam sem julgar”, disse o paciente.
Apesar das conquistas, ele reconhece que ainda enfrenta preconceitos, como a rejeição em um exame por causa da medicação. Mesmo assim, reforça que a fé, a esperança e o apoio recebido foram fundamentais para superar os desafios. Para ele, comentários e piadas sobre o CAPS só revelam desinformação diante de um trabalho sério que devolve dignidade e reinserção social.
A Prefeitura de Divinópolis conta com serviços e profissionais altamente qualificados e reafirma seu compromisso com a promoção da saúde mental, incentivando o diálogo aberto e valorizando os serviços que transformam vidas e promovem o bem-estar da comunidade.