Enfrentar situações de vulnerabilidade relacionadas ao uso de álcool e outras drogas pode exigir diferentes formas de cuidado. Pensando em alternativas que vão além da internação, a Prefeitura de Divinópolis, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), mantém, desde setembro de 2022, a Unidade de Acolhimento Adulto (UAA), serviço articulado ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD III) e administrado em parceria com as Irmãs Hospitaleiras. Localizada no bairro Belvedere, a unidade oferece acolhimento residencial temporário e acompanhamento a homens em situação de vulnerabilidade social ou familiar.
Desde a inauguração, 439 usuários passaram pela UAA até agosto de 2026. Somente em 2025, foram 118 pessoas acolhidas e, em 2026, até o período informado, outras 80. A unidade dispõe de dez vagas masculinas e, no momento do levantamento, sete estavam ocupadas. A quantidade pode variar diariamente de acordo com as entradas e saídas.
O acolhimento pode durar até seis meses e é destinado a usuários que necessitam de suporte residencial terapêutico temporário e não possuem indicação para internação. Durante esse período, o morador mantém o vínculo e o acompanhamento pelo Caps AD III, enquanto recebe suporte para desenvolver autonomia e dar continuidade ao tratamento no território.
Na UAA, o acolhimento vai além da oferta de um espaço para morar temporariamente. A rotina é organizada para estimular responsabilidade, convivência e autonomia. Os moradores participam da organização e manutenção dos espaços coletivos, cuidam dos próprios pertences e da higiene pessoal e colaboram com atividades relacionadas às refeições.
A rotina também acontece fora da unidade. Os moradores podem manter compromissos no Caps AD e em outros serviços da rede, trabalhar ou buscar emprego, estudar, resolver questões relacionadas à documentação, participar de atividades de geração de renda, visitar familiares e circular pelo território. A proposta é que, gradualmente, cada pessoa reassuma responsabilidades e desenvolva condições para seguir com maior autonomia após deixar a unidade.
O acompanhamento considera as necessidades de cada usuário e os objetivos estabelecidos no Projeto Terapêutico Singular (PTS), construído individualmente a partir da história de vida, das necessidades, potencialidades, desejos e objetivos do próprio morador. O planejamento envolve o usuário, o profissional de referência do Caps AD e a equipe da UAA e pode estabelecer metas relacionadas à saúde, convivência, trabalho, estudo, vínculos e organização da vida.
A supervisora da UAA, Maysa Guimarães Maia, destaca que a reconstrução dos vínculos familiares também faz parte desse processo. “A participação da família é muito importante no processo de acolhimento e na construção do projeto de vida do morador. Mas, na maioria das vezes, os moradores chegam com os vínculos rompidos ou bastante fragilizados, muitas vezes em decorrência de conflitos, do uso prolongado de álcool e outras drogas e das situações de vulnerabilidade vivenciadas”, aponta.
Ao longo do acolhimento, questões práticas como busca por emprego, organização de documentos, administração do dinheiro, cuidados pessoais e cumprimento de compromissos são trabalhadas gradualmente. A proposta é apoiar o usuário no desenvolvimento de habilidades que contribuam para a continuidade do cuidado e para uma vida mais autônoma após a saída da unidade.
Segundo o diretor da Atenção Secundária, Geraldo Mangelo, a ampliação dos serviços do Caps AD foi importante para atender usuários que necessitam desse suporte. “Alguns pacientes necessitam de acolhimento residencial temporário, maior proteção e estabilidade para pessoas em situação de vulnerabilidade clínica, social ou familiar, redução de danos, melhora na organização da rotina, no autocuidado e na capacidade de lidar com situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas”, destaca.
A coordenadora do Caps AD III, Cássia de Abreu Araújo, ressalta que os avanços ocorrem de formas diferentes para cada pessoa. “Temos vários casos de conquistas em diferentes vertentes, como autonomia, protagonismo, redução de danos, fortalecimento de vínculos, trabalho, retorno aos estudos e reinserção social”, afirma.
A saída da UAA também é planejada durante o período de acolhimento. A equipe, o morador e o Caps AD avaliam a evolução e as metas estabelecidas no PTS para definir os próximos passos. Conforme a necessidade, outros serviços das redes de Saúde e Assistência Social podem ser articulados para garantir a continuidade do acompanhamento.
A construção da autonomia também envolve desafios. Entre eles estão a adesão ao tratamento e ao PTS, o manejo de recaídas, os conflitos de convivência, a fragilidade dos vínculos familiares e sociais e as dificuldades de inserção ou reinserção no mercado de trabalho. A unidade também busca ampliar iniciativas relacionadas à inclusão social e à geração de renda e qualificar continuamente a equipe.
A redução de danos integra as estratégias de cuidado. A equipe busca compreender as dificuldades de cada morador sem julgamentos e construir, em articulação com o Caps AD, alternativas para reduzir os riscos relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Mudanças podem ocorrer gradualmente, a partir da retomada dos cuidados pessoais, da organização da rotina, da participação nas atividades e do cumprimento de compromissos.
Atualmente, não há indicação de necessidade de ampliação das dez vagas existentes para homens. Entretanto, a rede municipal identifica a necessidade de uma unidade destinada ao público feminino, apontada no material como uma lacuna na assistência disponível.
O acesso à Unidade de Acolhimento Adulto ocorre exclusivamente por meio do Caps AD III. A UAA não funciona como porta de entrada direta: o usuário precisa estar inserido e acompanhado pelo serviço, cuja equipe avalia a necessidade do acolhimento e constrói, juntamente com ele, o planejamento para o período de permanência.
Também são consideradas questões como autonomia para as atividades diárias, condições de convivência coletiva, disponibilidade para participar do processo de cuidado, objetivos de vida e condições clínicas e psíquicas compatíveis com o acolhimento residencial. A proposta é oferecer um ambiente protegido e semelhante a uma residência, sem substituir o acompanhamento realizado pelos demais serviços de saúde.
Com a UAA, a Prefeitura amplia as possibilidades de cuidado em liberdade oferecidas às pessoas em situação de vulnerabilidade relacionada ao uso de álcool e outras drogas. Além do acolhimento temporário, o serviço oferece escuta, vínculo, orientação e suporte para que cada usuário possa reorganizar a vida, fortalecer relações, acessar direitos e construir caminhos para a continuidade do cuidado.









